Um dia sonhei


É suave, refrescante
Ouço
Afoga-te!

Continuo a andar
Olho em volta
Cheira a violetas
Sabe a carvão

Afoga-te!

Tudo gira, redemoinha
Os sentidos apuram-se
Sinto a terra
Que segura os meus pés

Escuto

Afoga-te!
Corre! Corre!

Corro
Algo cai com um baque
Estou no chão
Vejo folhas lá em cima

Levanta-te! Continua a correr!

Afoga-te!

Acordo

a porta



Era uma vez um homem
que não abria nem fechava a porta.
A porta entreaberta.
A porta semicerrada.
De costas para a porta,
o homem ao piano.
Aprumado, insubstancial, como se lá não estivesse.
Quase plano.
No lugar da janela, um ecrãm onde passam imagens.
O mundo gira sem parar.
O homem tecla sem respirar.
A música que sendo a mesma, nunca é a mesma.
O homem que sendo o mesmo, podia ser outro.
A música, o mundo,
o movimento giratório da terra,
a vertigem até à morte.
Poucas pessoas entram e saem por essa porta.
Muitas passam e seguem.
Muito poucas, as que têm tempo, esperam do lado de fora.
Sempre no mesmo sítio,
o homem, plano, não olha para trás.

Helena; jan2008
POUCO ME IMPORTA QUE RESTEM
PEDAÇOS DE MIM NAS PEDRAS

Para sempre à espera de amanhã



Um sopro seco,
Um sussurro arranhado.
O longo silêncio
Viajante.

Na tarde que dorme
Espero pelo que era nosso,
Sem o ter-mos pedido
E que em meu se tornou
Sem o ter merecido.

No bater desesperado
O som. Desritmado.
Tendo aquilo em que penso
Fogo inanimado!
Espero, nado
Sibilante luar de notas apagadas,
De voz corroída

Cansaço de cantar

Sinto as folhas gemer
Gritando o seu sofrer.
Vêm sentar-se a meu lado
Chão...
Inexistente

Somos a conversa
O passar das horas
Somos os cabelos desgrenhados do Sol
De madrugada.
Somos como flores do Inverno,
De coraçãozinho apagado
Mortas pela geada
Esventradas de palavras.

Somos a espera pelo amanhã